Primeiramente, eu não entendo nada sobre economia e se quer sei administrar as minhas próprias finanças, portanto, não me questione sobre fatores técnicos acerca da atual crise econômica, ok? Sim, eu sou jornalista (pelo menos é o que o meu diploma diz), mas eu não domino nenhum assunto, o que é uma vergonha para um profissional da área, eu sei. O que eu posso oferecer são algumas impressões baseadas em experiências de vida e não em conhecimento acadêmico ou similar. Agora com licença que eu vou ‘fazer’ a especialista em crise financeira com foco na Irlanda e é claro, baseada nas minhas experiências pessoais. A primeira delas vivida na casa de um empresário falido e a segunda na casa de um contador que trabalha para um banco. O que os dois têm em comum? Trabalhei para ambos.
Vamos começar pelo início? Setembro de 2010. Eu ‘aterrisso’ na casa do meu ex-chefe com as minhas duas malas, incontáveis inseguranças e dúvidas, enfim, essa história você já sabe... Ele, gerente da empresa do pai. Uma construtora que prestava serviços voltados à recuperação e manutenção de vias públicas. O padrão de vida ostentado pela família garantia alguns luxos tais como longos feriados na Espanha com pequenas viagens para resorts de esqui nos intervalos entre um holidaye outro. Os garotos estudavam eu uma das escolas mais caras do país e tinham todos os video games da moda. Wii, play 2 ou 3 (não me recordo desse detalhe), x-box e todos os acessórios de para os jogos. Só para citar alguns, eles tinham TODOS os instrumentos do rockband,knect, o tapete do wii fit etc. Nas férias os garotos foram para um acampamento de golf e ganharam equipamento profissional para crianças. Cada taco custou em média 120 a 150 euros e cada um dos meninos (são dois) ganhou uns 5. Fora o preço do camping que eu nem imagino.
Apesar de todos esses gastos com supérfluos o meu chefe tinha dó de me pagar. Vai ver que a pessoa que cuidava dos filhos dele representava o mais idiota dos gastos, né? Ainda se fosse um puta salário, mas era uma miséria... Alguns europeus acreditam que nós, brasileiros, cruzamos o oceano em busca de abrigo e um prato de comida. Eles devem pensar que o Brasil é uma selva onde os nativos só têm duas opções na vida. A primeira é viver com os macacos, amigos pessoais do Sylvester Stallone (clique aqui para ler mais sobre isso) e a segunda é morrer de sede e fome nas calçadas de Copacabana ou outra praia que eles conheçam. Fiquei pensando e cheguei a conclusão de que eles só conhecem Copa mesmo mesmo e olhe lá...
Ok, nós temos mesmo muita miséria no Brasil, mas o nosso país tem extensões continentais e é extremamente diversificado. Além disso, eles não lêem jornal? Geografia eu sei que não é o forte deles mesmo, porque agora Buenos Aires perdeu o posto de capital do Brasil para São Paulo. Bom, ao menos São Paulo fica no Brasil, né? O nível de ignorância desse povo é tão grande que a chefe de uma amiga minha perguntou a ela se no Brasil existiam vacas. Sério... É de dar raiva e dó. De outra feita uma mulher não acreditou quando ela disse que era brasileira porque ela é loira. Mas resumindo, eu acho que eles deveriam saber um pouco mais sobre o que acontece além das fronteiras geográficas, enfim...
De volta ao assunto, depois de algum tempo eu comecei a notar mudanças no clima da casa. A freqüência com a qual o meu chefe reclamava sobre dinheiro e trabalho aumentou consideravelmente. A construção civil na Irlanda está congelada, e como esse era o ramo que mais recebia investimento a mesa virou para os donos de empresa que até então tinham disponíveis todas as facilidades para obtenção de dinheiro.
Mas aí veio a bomba: o meu chefe estava sem trabalho provisoriamente porque a empresa não recebera nenhuma ordem de serviço e não havia sido contratada para nenhuma obra. Eu, na minha ingenuidade, acreditei que a ficha finalmente teria caído e que o meu chefe começaria a economizar e pensar no futuro. Mas veja só você, no mês seguinte ele voltou a trabalhar, graças a Deus, mas voltou também a gastar como se não houvesse amanhã. Eu fiquei encafifada, porque rolou um papo que a empresa devia para clientes e funcionários. E além disso os noticiários estão aí, esfregando na nossa fuça as previsões de recessão e tudo o mais. Preferi não pagar para ver e avisei que após a minha viagem com o meu irmão ele teria que arrumar outra escravinha brasileira porque eu me considerava escrava forra e a minha vaga na senzala estaria livre.
Em uma conversa informal antes da minha trip de férias ele me disse que não sabia do futuro da empresa, mas mesmo assim foi para Espanha com a namorada e filhos e se hospedou em um resort por uns 15 dias. Eu soube há duas semanas que a senzala continua vazia porque, segundo o filho dele, a família não poder pagar pelos serviços de uma nova au pair. A empresa está falida, os bancos não fazem mais empréstimos, e de quebra ainda querem de volta toda a grana que emprestaram. Os negócios familiares na Irlanda estão na banca rota. Agora, com certeza a ficha caiu e neguinho vai ter que repensar o modus operandi da vida, né?
Quer saber quando a bola de neve começou a rolar? Lá vai! Há mais ou menos uma década as companhias relacionadas à construção civil recebiam muito incentivo financeiro. Nessa época a Irlanda era chamada de “O tigre celta”. Foi a era de ouro da economia irlandesa. Todos pensavam que as finanças iam bem, mas na verdade as empresas viviam de empréstimo sem se preocupar em obter receita para cobrir os investimentos. Com a facilidade em receber dinheiro dos bancos as companhias se habituaram a viver desse dinheiro. Ninguém se preocupava com o futuro, porque até então ele parecia promissor. Os bancos emprestavam, as empresas pediam, e os bancos emprestavam novamente em um looping infinito. Muitas pessoas investiram em imóveis (meu atual chefe diz conhecer algumas que compraram até 15 casas!), aí deu no que deu. Os bancos não emprestam mais e as empresas estão devendo milhões, como é o caso da companhia do meu primeiro chefe. Agora você pergunta para o seu amigo economista os detalhes que não entendeu,
Estaria a Irlanda criando uma geração de vagabundos?
Vamos agora para outro ponto importante: o desemprego e as pessoas que aprenderam a tirar vantagem dessa situação.
Eu sempre converso com o meu novo chefe que é muito gente boa e uma excelente fonte de informação sobre finanças. Ele é contador e trabalha para um banco suíço. O melhor dessas conversas é que sempre surge um detalhe novo. O último foi sobre o funcionamento do serviço social de auxílio aos desempregados. Eu sempre soube que o governo irlandês protegia a população (financeiramente falando), mas desconhecia detalhes dessa relação doente.
Alô você que acha o seguro desemprego uma mamata e ama incluir palavras como “paternalismo” no seu discurso: Na Irlanda, país europeu que alguns brasileiros amam pagar pau, os desempregados mamam nas tetas do governo FOREVER AND EVER se quiserem. Chupa essa, mermão!
Como desconheço informações técnicas, lá vai mais um exemplo: O meu atual chefe recebeu um cliente que desejava renegociar a dívida da casa. A condição de pai de crianças pequenas garante a ele a segurança de ter um teto já que pai de filhos pequenos não pode ser despejado. Ele também não pode ter a luz cortada (esse segundo item também é valido no Brasil para quem não sabe), e a água na Irlanda ainda não é cobrada. Sacrilégio!Nêgo deixa a torneira ligada a noite inteira no inverno porque não quer que a água congele no cano. Isso é verdade e é desolador! Voltando ao assunto, o meu chefe consultou os extratos de cartão de crédito do cidadão e lá constavam passagens aéreas e compras. Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual ele não procurava algum emprego em pub, cozinha industrial ou similar o fella disse que não quieria esse tipo de trabalho com um certo desdém. Eu não sei em que parte da conversa o cidadão ainda soltou que estava indo passar um mês na Espanha com a família. A dívida foi postergada porque ele era pai de crianças pequenas e blá blá blá...
Eu fiquei passada com a saída triunfal do desempregado boçal, mas aí veio a explicação do meu chefe, um tanto óbvia, mas eu precisava ouvir isso da boca de um irlandês. Os desempregados recebem uma bufunfa do governo por tempo indeterminado, e além disso o governo paga uma grana as pessoas manterem as crianças (por criança e semanalmente) durante um tempo, então é o dinheiro do desempregado e dos filhos dele que não deve ser pouca. Aí ainda vem as outras facilidades para adquirir roupas, comida e tudo o que eles precisam. Sendo assim eles conseguem manter uma vida normal sem ter que trabalhar.
Outro dia eu ouvi no rádio que o centro de apoio aos trabalhadores estava oferecendo empregos por um salário de 1500 euros por mês e nenhum irlandês se candidatava porque esse é considerado um salário baixo. Cara, com 1500 por mês você consegue sobrevier tranquilamente. Sem muitos luxos, é claro, mas vive relativamente bem.
Agora um detalhe importante: os impostos para os trabalhadores aqui é altíssimo, chegando a 40% dos ganhos!O meu chefe me contou essa história meio revoltado porque segundo ele as férias na Espanha que esse cidadão jogou na cara dele serão pagas com o dinheiro do salário do meu chefe e dos outros milhões de Irlandeses que trabalham duro para manter uma vida bem regrada. O meu chefe não entra em um avião desde que o primeiro filho deles nasceu, há quatro anos atras. É de revoltar mesmo, não?
Então é isso. Para você que acha que o Brasil é uma puta zona, a Irlanda cabe dentro do estado de São Paulo e ainda sobra, e os caras não conseguem administrar isso aqui. E olha que estamos falando da Europa. Isso aqui já era uma sociedade moderna quando o Brasil foi DESCOBERTO! Aí eu começo a me conformar com a demora em organizar a casa no Brasil, esse bebê que ainda engatinha...

o.o
ResponderExcluirAdoro seus posts ;)
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